
Viver no estrangeiro é viver em solidão.
Solidão por ser sozinho. Sozinho por não se ter referência.
É como ter nascido gente grande onde se vive e ao mesmo tempo ser forasteiro em terra natal. Pense sobre tudo o que você ouviu, viu e aprender durante todos os anos de sua existência. Os livros de Machado de Assis que leu, as coxinhas com guaraná caçulinha nas festinhas de aniversário, o prato de arroz com feijão, a salada e bife de tantos dias, as milhares de palavras cujo significado estão arraigados em sua compreensão - sobre as quais não precisas nem pensar para usuá-las, mas vem como fluxo natural, no maravilhoso e misterioso algoritmo de seu cérebro. A nota precisa que identifica um baião, o conhecimento de que a quarta-feira de cinzas encerra o carnaval, quem foi o Chacrinha, o que é favela, Pedro Álvares Cabral, quermessa, procissão, marquinha de vacina no braço, a vozinha e cabelinho mirrados e as largas ombreiras e ego da Xuxa, Aquarela do Toquinho, Ney Matogrosso, Jô Soarez, Joga pedra na Geni, escovar os dentes após todas as refeições. Nada disso faz sentido, a página anterior está vazia. É ser invisível, transparente, volátil.
Morar no estrangeiro é realizar que todos somos ninguém e que o mundo é uma coisa s'o.
Morar no estrangeiro é realizar que todos somos ninguém e que o mundo é uma coisa s'o.
