Solidão


Viver no estrangeiro é viver em solidão.
Solidão por ser sozinho. Sozinho por não se ter referência.
É como ter nascido gente grande onde se vive e ao mesmo tempo ser forasteiro em terra natal. Pense sobre tudo o que você ouviu, viu e aprender durante todos os anos de sua existência. Os livros de Machado de Assis que leu, as coxinhas com guaraná caçulinha nas festinhas de aniversário, o prato de arroz com feijão, a salada e bife de tantos dias, as milhares de palavras cujo significado estão arraigados em sua compreensão - sobre as quais não precisas nem pensar para usuá-las, mas vem como fluxo natural, no maravilhoso e misterioso algoritmo de seu cérebro. A nota precisa que identifica um baião, o conhecimento de que a quarta-feira de cinzas encerra o carnaval, quem foi o Chacrinha, o que é favela, Pedro Álvares Cabral, quermessa, procissão, marquinha de vacina no braço, a vozinha e cabelinho mirrados e as largas ombreiras e ego da Xuxa, Aquarela do Toquinho, Ney Matogrosso, Jô Soarez, Joga pedra na Geni, escovar os dentes após todas as refeições. Nada disso faz sentido, a página anterior está vazia. É ser invisível, transparente, volátil.

Morar no estrangeiro é realizar que todos somos ninguém e que o mundo é uma coisa s'o.

Chinês é povo bonito




Perdoe-me o lugar comum, mas sou uma do grupo dos cabeça-curta que acham que todo oriental tem a mesma "cara".

Sei diferenciar chinês (e perdoem-me os taiwaneses - eles entram nessa minha mesma classificação) de japonês, de coreano. Acerto na faixa dos 85% os vietnamitas. Quanto aos filipinos ainda estou na fase "é filipino ou hispânico?"

Pois bem, parece que minha ignorância não é tão grande assim. Mas ainda, falando-se da população de um mesmo país oriental, nem me ventilava a idéia de que tantas variações de fisionomia eram POSSÍVEIS!

Escuta, todo o chinês que imigra para o ocidente tem cabelo liso e feições similares? É um fator pré-requisito para imigração?

Como no ocidente foi um tal de mistura-mistura de raças gerando uma diversidade fantástica de fenótipos, eu pensava que aqui (China) todo mundo seria meio parecido, justamente pela lógica inversa. Nem tanto. Lógica furadíssima.

É um povo BONITO e bem cuidado. Mulheres lindas, de meia de nylon e bota passando de bicicleta. Rapazes de jaqueta-blazer no mais alinhado estilo Armani-made in China.
Idade? Impossível dizer, chutar é erro certo de no mínimo 10 anos de variação para baixo.

Hum..., o inverno pode ter tornado minha avaliação parcial, melhor eu colocar desta forma: "os chineses são lindos no inverno". Lembrei-me das vendedoras nas lojas: "tire seu casaco para eu ver o seu tamanho." Experientes.

PORÉM..., um ocidental se destaca na rua, não tem jeito. Mesmo em cidades gigantescas, populosas e internacionalizadas como Shanghai ou Beijing não dá para se ter aquela sensação maravilhosa que se tem em São Paulo/New York: a de passar despercebido. Você é estrangeiro e, mesmo de boca cerrada, por onde passa isso é anunciado. Escolha outro lugar se quiser cometer o crime perfeito.

Por essas e por outras, se você vier a Shanghai, traga uma roupinha decente. Well, well, se não trouxer, tudo bem também, vão assumir que você é americano mesmo; então tanto faz, né?

De brasileiro todo chinês tem um pouco


Depois de 1 ano e meio nos EUA, sem ter "ido para casa" nenhuma vez, foi em Shanghai que me senti mais perto do Brasil. O povo chinês também é sofrido, e como o brasileiro, parece precisar de pouco para ser feliz.

É neguinho carregando o mundo em uma bicicletinha, tudo amarrado com barbante, em um frio de lascar, disputando espaço com os carros na rua, motorista que quase passa por cima, nada de sufoco, passa que passa até no sinal vermelho, de quebra quase atropela uns pedestres, como se fosse nada, vagando em pensamentos, sorrisinho estampado no rosto.

É neguinho tentando vender a mãe, malandro tentando qualquer negócio, mas malandro do bem, pode-se abrir a carteira recheada no meio da muvuca, ninguém mexe com você.

É neguinho no escritório trazendo chá, salgadinho para a reunião (mas precisamente pescoço de pato condimentado - êta nóis!), fazendo de tudo para agradar a visita, fazendo o estrangeiro se sentir importante.
Ah estrangeiro... isso é igualzinho, estrangeiro aqui também é rei. (Discutindo isso com um colega americano ele argumentou que é porque trazemos o dinheiro; pode até ser, sei não, mas achei coisa de americano ser tão desconfiado e ver uma razão financeira por trás de tudo que acontece no universo, acho que o chinês gosta da gente mesmo.)

N'outro dia vivi um momento piada de português: comprando um pacotinho de lenços de uma senhora que estava vendendo na rua (em São Paulo seria bala, pinça ou lixa de unha), eu imagino que no conceito dela eu dei dinheiro demais, então ela me voltou outro pacotinho de troco. Levei troco na "esmola".

Mas tenho que concordar que o chinês trás o que você comprou e fica do lado, esperando, pedindo o dinheiro de cara, desconfiado. No restaurante manuseia-se o dinheiro ali mesmo, quando a comida chega, as vezes até antes - quando se pede. Dinheiro é coisa séria aqui, nada do jeitinho brasileiro do "depois você me paga", nada disso. Taí uma diferença brutal.

Mas não importa, em Shanghai me senti um pouquinho perto de casa.


Pode-se tirar a brasileira do Brasil, mas nunca o Brasil da brasileira...