De brasileiro todo chinês tem um pouco


Depois de 1 ano e meio nos EUA, sem ter "ido para casa" nenhuma vez, foi em Shanghai que me senti mais perto do Brasil. O povo chinês também é sofrido, e como o brasileiro, parece precisar de pouco para ser feliz.

É neguinho carregando o mundo em uma bicicletinha, tudo amarrado com barbante, em um frio de lascar, disputando espaço com os carros na rua, motorista que quase passa por cima, nada de sufoco, passa que passa até no sinal vermelho, de quebra quase atropela uns pedestres, como se fosse nada, vagando em pensamentos, sorrisinho estampado no rosto.

É neguinho tentando vender a mãe, malandro tentando qualquer negócio, mas malandro do bem, pode-se abrir a carteira recheada no meio da muvuca, ninguém mexe com você.

É neguinho no escritório trazendo chá, salgadinho para a reunião (mas precisamente pescoço de pato condimentado - êta nóis!), fazendo de tudo para agradar a visita, fazendo o estrangeiro se sentir importante.
Ah estrangeiro... isso é igualzinho, estrangeiro aqui também é rei. (Discutindo isso com um colega americano ele argumentou que é porque trazemos o dinheiro; pode até ser, sei não, mas achei coisa de americano ser tão desconfiado e ver uma razão financeira por trás de tudo que acontece no universo, acho que o chinês gosta da gente mesmo.)

N'outro dia vivi um momento piada de português: comprando um pacotinho de lenços de uma senhora que estava vendendo na rua (em São Paulo seria bala, pinça ou lixa de unha), eu imagino que no conceito dela eu dei dinheiro demais, então ela me voltou outro pacotinho de troco. Levei troco na "esmola".

Mas tenho que concordar que o chinês trás o que você comprou e fica do lado, esperando, pedindo o dinheiro de cara, desconfiado. No restaurante manuseia-se o dinheiro ali mesmo, quando a comida chega, as vezes até antes - quando se pede. Dinheiro é coisa séria aqui, nada do jeitinho brasileiro do "depois você me paga", nada disso. Taí uma diferença brutal.

Mas não importa, em Shanghai me senti um pouquinho perto de casa.


Pode-se tirar a brasileira do Brasil, mas nunca o Brasil da brasileira...

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